segunda-feira, 29 de março de 2010



PERDIDOS

Alguém me diz o que fazer:
Devo sair da selva
E escolher uma das pedras
Que se equilibram na balança.
Qual pedra retirar do prato dourado?
Ficar entre as pedras:
Branca ou Preta...
A luta pela libertação do mal
E o contra-ataque de clausura do bem.
O caminho que percorremos nessa escolha
Para alcançar o premio luz,
Não se justificam os meios?
Devemos escolher o caminho
Ou já nascemos pré-destinados a seguir
Qualquer um que seja?
A natureza Humana
Ou Divina, nos da o livre arbítrio,
E se nos dá, porque tantos testes?
Fomos feitos com defeitos...
Não somos mais a semelhança?
Nossas ações nos transformam
No que seremos ao final de cada tempo?
Somos homens feitos pra passar por provas,
Só assim nos tornamos melhores ou puros?
E os animais... o que provam,
Provam cada vez mais
Que somos todos irracionais?
Somos uma coleção de escolhas seletas,
Ou somos nós mesmos as pedras
Que se equilibram suspensas no ar
Dentro de uma esfera linda e azul,
Somos as pedras que nos matam
E nos renovam?
Ou apenas somos
Os animais que não
Sabem nada de mais,
Perdidos dentro de um planeta
Que gira perdido
Dentro de um espaço gigantesco
E sem fundo?
Ainda assim para vivermos
Depois da morte,
Precisamos de predileção...
E você...
De que lado está
Do anti-morte
Ou do pós-vida?

sexta-feira, 26 de março de 2010



FIM DA ESTAÇÃO

Pela primeira vez, te vi
E o que vi, não foi bom
Pois te vi com o coração
Fazendo perder o que de mim
Restava de razão.
Razão paradoxal
Como sua figura estática
Em frente a uma porta
De uma casa já morta.
Hoje que te vi
Percebi que de ti
Restou apenas um pouco de mim,
Morto e estático,
Sem razão
Mas com amor no coração.
O que ocupará o lugar
Que outrora fora meu
Lar?
Os filhos que viriam
São agora frutos da imaginação,
Foi tudo, um engano de sensação?
Fora, fora com tudo isso...
Deixe as lembranças como estão,
Bem no fundo da alma,
Cravada como uma faca
Em cada coração.
E por que diabos
Não paro de pensar nisso:
É amor ou pura ilusão?

quinta-feira, 25 de março de 2010




VIVO SONHO

Todo dia ela me fala
Que tudo vai acabar.
Durmo...
Na esperança de não acordar.
Que o dia se transforme em noite
Para que eu possa parar de escutar
Que tudo vai acabar.
Sem suportar
Tento um acordo
Com o tempo,
Que ignora minha súplica.
Nada para o relógio...
Acordo...
Novamente para o dia
Com esperança que a alegria
A transforme
E não a deixe falar
Que tudo vai acabar.
A vida devia ser um sonho!
Um sonho para se sonhar:
Que esse dia nunca chegue
Que as palavras nunca se proclamem,
Acordo para o dia
Sem nunca acordar...

terça-feira, 2 de março de 2010



PROJETIL

Assim como bala
Que já sai do cano
Cheirando a sangue
Somos condenados
Ao fado já traçado.
O tambor gira
Mas o gatilho já não obedece
Aos comandos,
Bala de “matadeira”
Desperdiçando vidas alheias!
Sem controle
E sem noção
De uma situação
Que antevejo,
Cuspo no chão
A espera do tempo
Que a ampulheta viscosa
Me dá até secar,
Tempo precioso
Que tenho para pensar
Únicamente em mim...
Meu tempo é cuspe seco,
É marca no chão de ninguém!
Decomponho vivo:
Vivo, perco meu alento de compor...
Como animal morto à beira da estrada,
Espero que os urubus
Se alimentem de minha carne,
Façam-me desaparecer.
Defecado de volta ao solo
Torna-me combustível fóssil
Ou desejo de mulher:
Fruto de carbono puro,
Diamante perfeito
Sem lapidação.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010



PARADOXO

Como um desenho por vir,
Como um texto a existir,
Como o dia a surgir,
Precipito...
Tudo parece fora do lugar:
A rotação descompassada da translação.
Constante disritmia cardiorrespiratório.
Eterna luta entre razão e insensatez.
Sentimentos à deriva,
Quem mais é assim?
Querem destruir os amores inventados
E guardados para mim!
É tão difícil cruzar o espaço sinuoso até você,
Haja vista que a vida é curta
E a droga da bateria está acabando...
Vestígios das marcas dos pés
Deixados no chão de areia fina
Que são as lembranças daquela vida
Exposta ao vento,
Ao sal
E ao sol...
Proteja-se das manchas!
Eta! Palco pequeno que parece não caber dois corpos!
E se couber,
Será que suportará seus pesos cheios de vazios alheios?
Cena ridícula essa que passa no espetáculo que é a vida!
Somos pétalas livres da corola
Sopradas para bem longe
Fora do alcance da haste que nos nutre,
Tornamos-nos dispersos e mortificados!
Os gritos estão presos dentro de sacos de papel
A espera de alguém que os rompam,
Que os rompam com o aperto das mãos,
Causando a explosão de liberdade do grito ensurdecedor
E a autonomia do ar
Que retornará à atmosfera
Movimentando vida,
Aliviando o peito
E evitando a implosão dos corpos sufocados.
O ar é a paz!
O amor é o saco!
Onde não houver amor não haverá paz?
Nesse vértice busco encher os pulmões
Com o mais puro oxigênio,
Vivo!
Só resta agora
A coragem de sair cantando:
Alegria...
Alegria...
É manhã de um novo dia...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010



REAL . mente

Quando um homem está
Reduzido à solidão
O mundo parece estático,
As palavras são mudas,
Os gestos se tornam escoras,
Os pensamentos,
Só estes trabalham...
Aparecem mil vultos,
Dezenas de lugares,
Cenas de um filme,
Um cigarro aceso...
O peso fora dos ombros...
Os ombros fora do corpo...
O inconsciente navega pelos rios de fumaça,
O corpo se relaxa em puro prazer
Levando as idéias a se espalharem pelo ar
Desprendendo-se de tudo que é material...
Fluindo...
Livremente...
Suspenso...
Pá!
Um lampejo repentino
Traz a realidade do mundo aos olhos
Os movimentos voltam,
Os músculos e a razão retornam
Percebe-se que nada mudou,
Continua só em pensamento
E estado físico,
Mas...
Com a certeza de existir efetivamente,
Como é bom tornar à realidade!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010



SOLO SOLAR

Sementes atiradas em solo ruim brotam?
O que vem ao caso não são as sementes,
E sim o solo.
Como falar dessa substância, dessa matéria,
Desse minério esfarelado e inútil,
Se visto separadamente?
O que falar de suas rachaduras áridas?
O que falar de sua secura?
O que falar de sua esterilidade?
Aquilo que serve para caminhar...
Não desprovido de proteção,
Pois se assim for pode causar ferida,
Queimadura, inflamação,
Gangrena.
O que falar de uma espécie que se denomina crosta?
Solo morto é simplesmente a capa do globo!
Parte superficial de tudo que vemos.
Solo improdutivo... é vida solo...
Mas...
Solo devidamente regado
Cuidado com carinho, destreza e desvelo
Torna-se vida!
Ah... pedaço de chão capaz de produzir com facilidade,
Ser produtivo e criador,
Abundante!
Úbere de gemas e amor.
Renovação da existência terrestre.
De ti solo puro e fértil
Nasce tudo, vinga tudo, flori tudo,
Tudo se torna viçoso e cheio de frescor
Tu solo criador,
Transforma o mundo inteiro
Em diversas espécies diferentes
De flor...

(Nenhuma transformação é um ato isolado,
Para um amplexo são necessários dois corpos.
Para a fertilização da vida, várias variáveis
E um fator comum)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010



NINGUEM MAIS VÊ

Eu sei,
Eu sei...
Sei por quais margens,
De rios turbulentos andei
Para chegar à calmaria
Do lago tenro que sou...
Convido-te
A banhar-se nessas águas que renovam a alma
Que transcendem energia,
Que transferem paz,
Que ferem!
Águas do amor que ninguém mais vê.
Minhas flores dadas e retiras
Serviram para feri-la,
O buquê que me deste serviu para libertar minha alma.
A vontade é desejo de sorrir em paz!
Lembro de seus olhos
E ainda sinto um calor que derrete cada pedaço
De meu corpo,
As pernas tremem,
Os lábios se tocam
E penso:
Mata-me depressa...
Não sei se sou o autor ou o personagem!
Assim como Georg de "O Veredicto":
Corro para a ponte, salto seu parapeito,
E me deixo cair... no imenso vazio,
Para tornarem verdadeiras
As palavras duras, atiradas ao ar,
Contra todos os gestos e sentimentos
Que de mim brotaram...
Não sei se assim pode ser,
Mas deixe-me viver
Tudo outra vez...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010



O PRESENTE

A alegria tornou-se presente.
A paixão tornou-se presente.
O amor tornou-se presente.

Presente de mim você surgiu.
Presente de mim você pediu.
Presente de mim você realizou.

O desejo tornou-se presente.
O companheirismo tornou-se presente.
O sonho tornou-se presente.

Presente de mim você mudou.
Presente de mim você amou.
Presente de mim você me quis.

O presente trouxe você de presente,
Recebi o presente, que no presente me torna feliz.
Amo o presente, presente em você.
Você, o único presente pra mim!

domingo, 17 de janeiro de 2010



TARDIA


Hoje me libertei das correntes
Enferrujadas que feriam minha pele
E me prendiam a um passado de tortura
E desprazeres.
Liberte-se corpo presente,
Oponha-se a você mesmo,
Oponha-se a seus costumes,
Atravesse os limites,
Pois as barreiras só existem em sua mente!
Liberte-se e não se aglomere para viver,
Fuja dos quilombos!
Aproveite-se Lobo desgarrado.
Vagueie pelo mundo absorvendo o que puder.
Alimente-se,
Crie gordura para enfrentar o rigoroso inverno futuro.
Mas não hiberne,
Saia curioso e cauteloso
À luz do sol que ofusca a visão
Levando-te à escuridão momentânea,
Mas trazendo-te a clareza que procura.
Aprenda a escutar as batidas do seu coração,
Entre em seu ritmo
Entenda-se,
Estenda-se,
Procure o seu perdão, desculpe-se de si.
Fugi da senzala escura e úmida,
(com seu cheiro forte de fumaça e suor)
De pés descalços corro para meu interior,
Fujo de meus capatazes
Procuro minha liberdade em mim,
Porque de mim estarei livre
Vivendo plenamente
Eu mesmo,
Só...
Por escolha,
Por falta do que se preste ao lado,
Ou por falta de algo que me preze.
Vida dura de escravo intrínseco!
Suo em trabalho forçado
Para me aceitar como sou...
Sou alma?
Sou as palavras recebidas pelo correio eletrônico
No dia em que nasci?
Soul...
Sou um escravo sem dono
Com utilidade vencida,
Com profissão morta!
Hoje me libertei de tudo quanto não é proibido por lei...
Libertas quae sera tamen!
Corro...corro...corro...
Deixando para trás somente a corrente de ar
Que rodeia meu corpo
E golpeia as folhas secas sobre o solo
Mudando-as de lugar
Para adubar um novo pedaço de chão.
Ah... escravo sem rumo,
Fora de prumo,
A procura apenas de um canto bruno
Para despedir-se
Desse corpo aborrecido,
Calejado
E já inútil.
Torno-me à senzala
O berço que outrora nasci
Onde,
Ao terminar esses versos
Também Jazi.

(perder algo que não é nosso é fácil e não deixa estrago)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010



O QUE SOMOS?

Querer um espaço
Nem que seja o quarto sujo,
Escuro e mal cheiroso
Onde se guarda o ser,
O monstro,
O rola-bosta de "A metamorfose".
Depois de certo tempo somos descartáveis,
Cada vez que se muda
Se é esquecido e deixado à morte.
Se ainda não sei de mim,
Porque querem para mim?
Como todos têm a capacidade de querer
Tudo para os outros,
E sem perguntar nada...
Somos o que somos até querermos ser,
Ou podermos ser.
Não nos forcem a transformarmos-nos num inseto que não somos!
Em um ser que repugnamos!
Pois se assim for
Largaremos tudo,
Viveremos isolados
E definharemos famintos
Até a morte desejada.
A espera é uma virtude!
Tudo se move,
Tudo se transforma,
Tudo se renova:
A vida e a morte.
A calma é a pureza da alma!
Que o tempo faça se parar
De tal forma
Que possamos nos encontrar
Ainda nesse mundo
Bem-querer nessa vida,
Porque se forem nas próximas,
Teremos que evoluir e batalhar demais...
E para quem deseja ser cachorro
Seria uma vida quase impossível...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010



MÃE

A primeira voz
O primeiro amor
O primeiro convívio
O carinho!
O prazer de ter,
O ser e o bem querer.
A felicidade!
O poder de estar junto
Ligado a um fio:
Serei sempre seu filho.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009



ISSO É VIDA?

O que fizer hoje
Será o alicerce
Do amanhã...

És um escravo
Que constroe
A pirâmide da vida,
Desgasta-se
Para construí-la
Da base
Até sua última pedra
E quando chegar ao topo
Olharas
Para baixo
E veras
Que quando viveste
Mais intensamente (ou insanamente?)
Foi quando trabalhaste mais
Formando uma estrutura
Sólida
Para sustentar
Apenas uma frágil pedra
Que és teu maior desejo:
Sucesso.

(a que preço
padeces
por tal apreço?)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

HOJE É MEU OCTOGÉSIMO POST... e vamos em frente...



UMCINCODOZESETETRES

Entre a nascença e a morte,
Entre cada ano,
Entre o dia e a noite
Existe uma vida,
Uma única vida.
Vive-la que é o problema!
Hoje eu nasci,
E morro mais um ano,
Para mim,
E para as pessoas que por mim
Passam.
Mais cabelos brancos
Adquiridos com vivência e
Acúmulo de carga!
Peso e dor na consciência
Ganhos com anos
De falta de paciência!
É ... hoje...
Hoje, eu nasci a trinta e seis anos atrás...
E continuo querendo viver
Até não poder mais,
Só que para isso
Preciso dar o melhor
De minha vida
A quem minha vida é!
Hoje,
No dia em que vim ao mundo
Fico vendo as horas passarem
Esperando que os ponteiros
Marquem sete e meia da noite,
A hora do meu nascimento
E a virada
Para mais um dia
Desse corpo morrendo...
Viva,
Viva o meu dia
Viva com toda a alegria
Viva mais um ano de amor
Que de mim irradia
(antes que me acabe)
Aí...
Eu e vocês...
Quem é que sabe...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009



MENTE WEISS

O álcool me deixa lúcido
O sonho me acorda com ressaca...
Ainda vou escondido, para Cuba!
Ou para a África a procura do Baobá,
A árvore sagrada e caixa d’água da savana...
...
Eu visto de cima,
De fora do meu corpo:
A traça descoberta, achada, encontrada...
Rôo em minha mente
Palavras soltas que cercam a fé
Tais como, respeito e paz.
E vulnerabilidade
Se encaixa aqui?
Hum...
Meu tempo está fragmentado...
...
(Vinho sem companhia é puro álcool)
...
Olha o que me veio a mente:
O verde acalma a alma
Liberta o inconsciente,
Cada chuva pesada vinda
Com vento forte,
Lava a terra e espanta as sombras
Que ainda existem em mim.
...
De onde veio essa idéa?
Vai
Saber...
Se soubesse já tinha me libertado...
...
Sua história não é a minha
Seu clima também não!
(não preciso de tantas roupas)
...
Me transformarei em louça limpa,
Ainda molha em cima da pia,
A espera...
Secando...
Estático...
Esperando que me levem a gaveta de costume,
Me empilhem,
Fechem o armário
E sigam suas vidas,
Como se nada tivesse acontecido.
Aqui fico,
Até que portas se abram novamente.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009



PEDAÇO DE SUBSTÂNCIA SÓLIDA

Preto é a cor predominante
Nos sonhos que não possuo
Ou nunca lembro.
A lembrança é forma de sonho
Ou estado de presente
Preso ao passado?
São vagos...
E confusos os pensamentos
Que tenho a respeito de ser,
O ser tornando-se,
O ser sendo,
Apenas no sentido de ser...
Existir...
Sem poder divino,
Sem natureza humana,
Ser... somente ser...
Como uma pedra
Que atiramos ao lago sem pestanejar,
Que agora possuirá uma vida de pedra
Subaquática...
Ser,
Não importa onde estiver.
Essência de pedra atirada ao relento
De cada noite...
Serei uma pedra,
Por não sonhar?
As lembranças e sonhos futuros
Não seriam parte do presente,
Por estarem nesse momento se passando
Por minha cabeça?
Se lembro e penso agora,
Isso não é presente?
(sem passado... nem futuro...)
Pedra...
Quero ser uma pedra
Atirada ao lago
E viver uma nova vida
Subvida,
Sobrevivida...
Como é difícil ter vida de pedra!
(pedra com graça, vivacidade e espírito)
Sou inorgânico...
Afinal, como me chamam
Sou sal:
A derradeira pedra
No jogo da existência
Dessa vida banal.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009



A POUCA DISTÂNCIA

Atualmente me corto
Mais ao fazer a barba,
Coisa que jovem não faz,
Não a barba, se cortar.
O tempo nos deixa
Cada vez mais vacilante,
O que é preocupante,
Pois barba se faz cotidianamente
E não tenho tanta pele a gastar.
O que o tempo nos faz...
Nos leva a subsistir.
Cada vez mais,
Existindo individualmente,
Necessitando dos outros para tudo!
Como pode ser?
Haverá um dia próximo,
Que tremulo,
Olharei para o espelho
(com a lâmina afiada na mão)
Fitando a barba
(e o pescoço)
Por fim,
Desistirei de fazê-la
Deixando-a sempre por vir
Até atingirmos o chão.

(Barba e
Corpo
Confundem-se
Dentro de qualquer caixão)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009



VIL

O tempo muda
As pessoas,
Os lugares,
As idéias,
Os costumes,
As alegrias,
Os amores,
As brincadeiras,
Os rumores
De que a vida
É passageira...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009



SENTIDO OPOSTO

Na mesma reta
Após várias curvas
Da mesma estrada
Em sentidos opostos
E velocidades diferentes...
A estrada da vida
(e seus desvios)
Nos leva a cada caminho que nunca esperamos:
Quem diria que por milésimos de segundos
Estaríamos no mesmo lugar,
Lado a lado,
Olho no olho?
Zummmm
Agora é só uma imagem no retrovisor...
Cada vez mais longe,
Cada vez menor,
Até sumir no horizonte.
A vida devia ser vivida
Em slow motion,
Quadro a quadro,
Assim aproveitaríamos
Cada milésimo de segundo
Como se fosse
O fim de nossos tempos
As linhas de nossas vidas
(dead line).
A imagem esta gravada
Como foto de minha memória,
(foto fria e amarelada)
Pois a estrada agora
Nos coloca como opositores,
Como moventes
Separados por linhas continuas
Que nos proíbem de ultrapassar
Para ficarmos do mesmo lado
E seguirmos o mesmo caminho.
Chegas ao ponto de partida,
Chego ao ponto de chegada,
Fim da viagem.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009



PARA MIM

Quem nunca olhou para parede
Quem nunca quis o futuro
Quem nunca deitou em uma rede
Quem nunca foi dedo-duro.

Quem nunca olhou pela porta
Quem nunca reviu o passado
Quem nunca quis uma torta
Quem nunca foi xingado.

Quem nunca chorou ao ler uma carta
Quem nunca esteve carente
Quem nunca se cortou com uma faca
Quem nunca ficou doente.

Quem nunca escutou uma prosa
Quem nunca deu uma rosa
Quem nunca sorriu
Quem nunca partiu.

Quem nunca me viu...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009



O MERCADO...

O mercado do centro,
Antes de abrir
É só um prédio cinza.
Ao passar das horas,
Com o desabrochar,
Transforma-se em pétala e flor
Em cheiro e sabor,
Em passos e vidas
Cheias sentimentos e cor.
À noite depois de fechado
Torna-se escuro e covil,
Bordel de corpo e alma
Com seus cheiros e sentidos.
Mercado movente.
Casa de tolerância.
Câmbio negro.
Mulheres sem amor,
Dando amor,
Cobrando amor.
Feira livre
De pura
Oferta e procura.
O mercado a noite e de dia
Abastece o homem de carne
E grão, sem rancor.
A manhã que torna todo dia
Clareia de escuro à cinzento,
Despertando novamente
O empório,
Transformando tudo em pétala
E flor e amor.
O mercado é
Compra e venda,
Cada mercadoria
Tem seu apreço
E valor.

domingo, 22 de novembro de 2009



FIM DE ANO

Todo ano tem fim de ano,
Todo ano continua,
Tudo continua na mesma...
Ano inteiro a espera
Do fim de ano à esperança de tudo mudar,
Mas fim de ano não muda nada,
O que muda o ano são os homens que não
Sabem amar.
Todo ano tem fim de ano,
E suas promessas repetidas,
E tudo continua na mesma...
Ano inteiro esperando
A vida roubar um pouco de vida
Que ainda resta
Aos homens que aprenderam a amar.
Todo ano tem fim de ano...
Todo fim, é fim de ônus...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009



FEIRA

Essência...
Essência...
Eu preciso de essência...
Deixo logo solto no ar, que essência não é perfume...
Daí-me essência em tudo que me cerca,
A dos vegetais, animais e minerais...
Dos humanos (como é difícil distingui-los)
Eu preciso de essência,
Não somente afago,
Sorriso educado,
Alegria
E corpo desfrutável.
Quero a essência de cada consciência!
Estou pronto,
Quem tentará abstrair a minha?
Vem, pegue-a como se pega uma fruta
Não escolhida
Em uma banca de feira,
Fite-a, pegue-a, e se vá
Sem olhar para trás
Leve-a contigo para casa,
Coma-a, lambuze-se,
Ou deixe-a apodrecer
Em cima da gamela de frutas por comer...

terça-feira, 17 de novembro de 2009



FINDO

Mais um livro findo
Não absorvido
(destituido...de idéias e propósito)
Porque ler se sou disléxico de corpo e alma?
Se não lembro o que li
E onde o guardei?
(se guardei)
O que fica é uma névoa
Que...
Que embaça os olhos...
Uma dor ardente...
Cerro as pálpebras,
Sensação brilhante
Momentânea, instantânea
Lembrança da página sem conteúdo...
Sem memória.
Sério, porquê que leio,
Se quando entendo os versos (da vida)
Já é tarde de mais?
Leio por ler?
Ou...
Procuro o acúmulo de inteligência
À estante de portas fechadas que sou?
Prateleiras carregadas de volumes de diversos títulos,
Mas vazia de conhecimento.
Dispensa de traças!
Então, porquê leio
Se não aplico nem replico?
Leio para preencher as horas vazias
E... como o tempo é vazio...
Eu completo vazio...
As palavras que leio saem de mim como
Água escorrida de cachoeira
Vão parar não sei onde,
Não consigo acompanhá-las...
Eu esgotado até a última gota...
Quando leio me preencho até o final de cada verso
No próximo já me esqueci do anterior.
O que fizeste de mim Deus?
Porque fizeste de mim um livro que não sei ler?
Que não consigo compreender?
Muito menos citar?
(me faço esquecer...escapando...)
Eu, logo eu...
Livro de prateleira fechada,
Livro sem leitura,
Livro de enfeite no armário da vida.
(ah, que esperança levar umas lambidas...
ao ser lido frente e verso em passagens de páginas,
por qualquer rapariga...)
Mas sou livro de armário fechado!
Sem luz,
Sem cor,
Sem curiosidade,
Sem conteúdo...
Quem abrirá um dia esse móvel vil,
E por pura sorte, por sorte,
Escolherá tal livro?
O livro esperando por ser preenchido,
Decifrado,
Simplesmente lido!
Findo.

Livros não pedem: esperam!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009



TATO

Frases de mim que não deram em nada...
Dividido entre o bem e o melhor
Desencontrado em cheiros e gestos
Pensamentos em mim que não levam a nada...
A janela está aberta, mas o vento não entra,
Lá fora o céu derrama-se em nuvens de lágrimas
Com olhos roxos de apanhar do tempo.
E o vento, nada.
Nada!
Tento passar as horas lendo,
Perdido em sentimentos de outros autores
Sentimentos todos estes, que mais parecem meus...
Os sentimentos deveriam mudar a página,
Ter ponto de fim.
A dor do autor é diferente em cada leitura,
Misturada à dor de cada leitor...
Escarra autor,
Exclama dor no peito de cada leitor!
Leitor e autor divididos,
Desencontrados em suas dores,
Iludidos por seus amores...
Autor e leitor perdidos em páginas amareladas
Pelo tempo de uso, gastas por restos de saliva
Deixados por pontas de dedos desconhecidos,
Nas viradas exaustivas das paginas
À procura do fim da historia,
Que não tem fim.
Minha inspiração foi pega pela fome!
Desviei-me em nome da energia corporal,
Das lombrigas que de mim castigam,
Da falta de comida no cérebro...
Mas continuo di-vi-di-do...
Sem fome... porém vazio.
Onde esta o vento que não cospe sua brisa em minha face?
Queria que o autor parasse de repassar meus sentimentos,
Pensar repensando...
Repassando...
Fecha logo esse baú de lamentações
Abrace todas as razões e fuja!
Pára sua pena,
Que fecho meu livro!
Vai autor a procura de sua dor
Que vou eu leitor, a procura de um amor...
Atrás de um ponto de fim
Nessa história injusta vivida em mim.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009



LEMBRANÇA

Quão lembro
De meu pai
Criança, lembrança
De mim?

Lembro do velhote
De porte forte
Que deixou a morte
Para mim,

Lembro da vida
Lembro da lida
De todos os dias, enfim

Lembro do esporro
Do cheiro de mofo
Que tinha o fim.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009



ADUBO

Como despedir de um amor?
Amor não se despede
Amor não tem tempo
Amor é presente
Amor fica,
Fica cravado em cada pedaço do corpo,
Em cada lampejo de memória,
Em cada olhar, (perdido)
Em todos os cheiros sentidos,
Em todas as manhãs acordadas,
Em cada noite velada,
Em todos os dias sofridos no trabalho,
Em cada conversa,
Em todos os poemas,
Em cada linha escrita e recebida,
Nas lágrimas derramadas,
No medo de perder, perdendo.
O amor, ah o amor...
Não posso deixá-lo ir...
Não, nunca vou perdê-lo!
Tudo que tive desse amor
Levarei comigo.
Se sou melhor hoje,
Devo a esse amor!
Um amor que nunca,
Nunca terei igual
De novo.
Não despeço de ti amor,
Fico contigo em cada minuto
De minha reduzida vida,
Levarei triturado em mim
Como pó
Em cada poro
O amor que tenho por ti
O amor que ama o amor,
Amor simples e perdido
Perdido em todos os sentidos
E sentimentos.
Mas desse amor não...
Não esquecerei jamais
Tamanha intensidade
Pureza,
Realidade,
Quase um amor canino
Amor pra dar e dizer que não recebe,
Percebe?
Dizer, não é não receber!
Te levarei amor puro
Para dentro da terra
Que é o lugar que merecia eu
Jamais ter saído
Por não perceber tamanha grandeza.
Deveria voltar a ser pó,
Barro,
Voltar a fazer parte da terra
E nela me fundir
Virando adubo
Para que um dia,
Um dia qualquer...
No buraco que fui enterrado
Possa nascer a mais bela flor,
A flor da superação
A flor da transformação
A flor do nosso verdadeiro amor.
Cavo aqui meu fosso,
Nele me deito
Esperando ser adubo
Esperando... esperando...
Esperando... esperando...
Um dia
A flor
De mim surgir
Em forma de amor.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009



ILUMINADA

A lua me abandonou
Esqueceu-se de meus versos.
Porque estás tão triste,
Tão longe de mim?
Resolves-te simplesmente
Casar-se com mercúrio,
O planeta rubro amante?
(Quente e vermelho de ciúmes do poeta ardente)
Saturno carregará sua aliança,
Deixando o poeta sem nenhuma esperança?
Torna a clarear meus versos
Lua constante.
Torna a iluminar a escrita,
Vê se deixa seu amante um segundo,
Olha para cá,
Para esse poeta vagabundo.
Sei que lua é mulher
Que tem lá suas mil fazes
(não faces)
Em cada mês corrente,
Mas não se estresse com nada
Oh lua iluminada,
Pois os versos dessa embolada
Te trarão de volta
Após cada nova alvorada.
O poeta se apaixona todo dia
Pelas curvas que a lua irradia.
Vem, pára de iluminar apenas o sertão,
Vem correndo beijar-me por inteiro
E preencher seu espaço
Ainda vazio em meu coração.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009



FALAR POR FALAR

Em tempo escandaloso
Não agüento mais
O peso das horas
De conversa jogada fora
Sem razão, sem contexto
Sem sentido.
As palavras saem da boca
Com sons que não escuto
Em frases que não entendo
E nem me faço querer entender.
Porque falar tanto,
Se é no pensamento
Que a vida se engrena?
(ou se engana.)
Exprimir-se a esmo é
Aspereza na garganta
E frouxidão do cérebro.
E como tem gente que fala
Nesse pobre mundo,
Casulo de Helenas e
Raimundos!
A voz é a embriagues sonora
Em ouvidos desacostumados,
É bebedeira em copo vazio,
É sentar-se em cadeira quebrada
De botequim empoeirado.
A voz é estrondo,
Estupro
Da alma calma do silêncio
É duelo de armas diferentes:
Covardia.
O mundo deveria ser só silêncio
Talvez cortado suavemente
Por canto de pássaros
Ou música que
Apenas a natureza tocasse!
O mundo podia resumir-se
Em pensamentos,
Se assim fosse,
O deslumbre ao ler tais versos
Causaria uma explosão de silêncio
Gracioso e doce
Em cada alma
Que um dia o escutasse
Num sussurro vindo do vento
Ecoado no espaço.
Voa verso fino
Voa para os ouvidos
Dos falantes
Torna-os apenas ouvintes,
Amantes
Do sossego
E de versos
Cheios de tons
E requinte.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009



EU, SER DICIONÁRIO

Pendência
O conflito de idéias e redação;
Redenção
Libertação da escravidão do pecado;
Pecado
Entre o capital e o original;
Brio
A valentia do fogo sagitariano;
Interjeição
Em grito mudo de todos os sentimentos;
Locução
Roteiro de uma vida fragmentada;
Válvula
De controlar fluxos de idéias;
Pensamento
Fantasia do sonho e da imaginação;
Intelectual
Inclinação por coisas do espírito, da inteligência;
Espírito
O ridículo divertimento cômico do humor;
Idiota
Que sofre de idiotia tola acumulada;
Amor
Cupido míope de flecha sem mira;
Malícia
Não adquirida ao nascer e caminhar;
Brejeiro
Naturalmente brincalhão e vagabundo;
Safado
Gasto e deteriorado pelo uso;
Expectativa
Sem qualquer probabilidade e com todas as promessas;
Corpo
Parte principal de um livro sem relato;
Livro
Obra alfabeticamente viva, sem volume;
Constituição
Características funcionais, anatômicas e psíquicas
De um ser chamado dicionário
Involuntário
À vontade de ser lido, aberto e entendido;
Findo
Passado, acabado, concluído.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009



ÚLTIMA HORA ANTES DE NASCER

Noite grande
Dia longo
“Passo a madrugada procurando um raio de luz”
Ah... dia que não passa
Ah... noite acordada
Mostra-me logo essa alvorada!
Vivo em madrugada
Semente do dia
Pó da noite
Aurora
Minha amante de cor
Com todo seu açoite
Felicidade azul
Morro e vivo em ti
Extremidade e antecipação
Alvor sem pudor
Claridade sem lealdade
Principio da alma.
Vivo em ti
Alvorada amada
Arraiada
Morte do tenebroso
Genitora do luminoso
Casa salva de minha alma
Embriago-me em teu clarão
Esqueço-me da noite
E entro para o dia,
Ainda hesitante,
Saudoso e apaixonado
Pela lembrança
De minha alva amante.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009



TÍTULO EM AZUL


Não sou insensível,
sou inquieto,
nas qualidades
tenho o amor
que torna tudo
em dor.
Aplausos,
fomos sorteados
ganharemos a felicidade
que virá a prazo,
nada mais de dor,
De agora
até o próximo mês
chegará a nossa vez.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009



ASSIM NASCE

O desejo é limite do olhar
O olhar é limite do beijo
O beijo é limite do coito
O coito é limite do esperma
O esperma é limite da célula
A célula é limite do osso
O osso é limite da carne
A carne é limite da alma
A alma é limite da noite
A noite é limite do dia
O dia é limite da idade
A idade é limite do álcool
O álcool é limite do sonho
O sonho é limite da vida
A vida é limite da morte
A morte é limite do desejo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009




PREVISÃO EM TEMPO

A chuva me rondou o dia todo
Circulava...circulava
O vento passava correndo
Os raios chamavam os trovões
E a chuva só
Só ela
Somente ela não chegava
Circulava...circulava
Fingia
Fugia
Me irritei.
Ô chuva, vê se cai
E para de milonga
Molha logo esse chão
Lava logo essa alma
Leva agora a podridão
Para bem longe...
Pro fundo do mar!
A chuva tem seus ouvidos
E querenças
Até parece que é da nona constelação,
Só cai quando quer, se quer cai
E agora às 23:21
To de alma lavada
Vendo a podridão
Se afogar na enxurrada
A caminho do mar.



DESENCONTRO.

Nuvens
São como pensamentos,
Cada vento
Uma nova forma de sofrimento.

Forma muda.
Muda o pensamento,
Muda o ar,
Mas não a forma de amar.

O ar que muda as nuvens
Roda sem parar
A procura de nova nuvem
Na esperança de amar.

O amor que o vento refresca
Na forma de olhar,
No jeito de andar,
No sorriso a beijar,
Nunca pára de sonhar.

O amor que move o vento
Esse vento besta a procurar
Em quem encostar
Para lhe ensinar a amar.

Amor que não se ensina
Vento que não procura
Coincidência...
O amor e o vento
São felizes por não se encontrar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009



CLAMOR

Um grito de encontrar
Sem de fato procurar!

Perambulando deparo
Com fruto mundo obscuro,
Tomo um pouco de ar
Vejo o céu, enxergo.
Olho os pássaros, vejo.
O sol está nublado, mas está no seu lugar.

Vou de encontro ao rio
Que deixa sua água passar,
Passando,
Sem desperdício, cortando a terra
À procura do mar.

Ah nuvem, de onde veio?
Como se formou tão densa?
Onde sua lágrima vai soltar?

O rio é lágrima de nuvem.
O céu é rio de nuvem.
A nuvem é estrada de pássaros.
O sol é lâmpada lunar.

Como viver essa vida
Que corre como um rio,
Que voa como o pássaro,
Que é densa como a nuvem,
Que se transforma como o sol?

O grito é o remédio do dia
O dia é a solução da vida
A vida é fonte de nuvem.

Aqui perdido,
Deixo minha vida!
Que o rio a leve,
A transforme em nuvem,
A aqueça de sol,
E a dissemine como lágrima.

Vai vida
Parta como o grito, à viva força.
Liberte-se no ar, como os pássaros.
Se encontre no universo, sem se procurar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009



SOBRE VIVER

Sobrevivendo a mim
Vago e pausado eu
Vogo em meus conflitos
E naufrago nos sentimentos.
Eu, os versos de Tabacaria
Em Pessoa
Vivendo no Fado Tropical
Assim agora creio
Cri
Crerei.
Meus livros me prendem
Meus versos me esmagam
Minha razão me julga
Ainda assim
Sobrevivo a mim.
Eu, repleto de dores
Sofrimento moral
Administro meu doping
Intoxico-me de mim.
Casto
Para não transmitir gene
Dizimando futuras proles
De futuros eus
De futuros sobreviventes
De mim.
Minhas palavras cortam
Minhas atitudes aniquilam
Meu peso me drena
Ainda assim
Sobrevivo a mim.
No copo me analiso
Clinico cínico que não me da alta,
Tropeço nas dúvidas profundas
Se continuarei
Sobrevivendo sempre assim
Além de mim.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009






Pior que estar sozinho é sentir-se só.
Sempre à espera de algo, nem sempre de companhia.
Espera-se o nascer do sol, a brisa do vento,
Qualquer que seja o momento.
O espaço fica cada vez mais apertado
Os cômodos menores
Os passos são contados
As paredes não saem da frente
Portas imprudentes.
Os enfeites, em cima dos móveis, parecem oponentes de maratona
Para todo lugar que se olha, lá estão, indiferentes.
Pode tentar se livrar: mas solidão é companhia
Pode sair na carreira, virar nunca para o mesmo lado,
Com euforia olhar para trás - alegria!
Despistou a sorrateira,
Por um instante se acha livre,
Mas logo percebe que ex-liberto está
A senhora não lhe dá ventre livre – sofre calado.
Escravo de uma senhora invisível
Preso no tempo, acorrentado ao espaço.
A fuga sempre a elaborar
Cavando o próprio túmulo intransponível
Na esperança de sozinho nunca mais ficar.

terça-feira, 29 de setembro de 2009



O CHATINHO

Ao abrir a janela
A grama sorriu para mim.
Avistei também um jasmim:
O chato dos poemas!

Nos meus não tem tal flor,
Não que sofra de amor,
Mas é uma planta chata
Porque não relata

A forma pura de amar,
O jeito simples de viver,
O gosto puro do beijo,
O sorriso sincero de querer.

Prefiro o capim
Que é menos nobre
Mas tem o gosto do amor.

A pobre gramínea
É mais resistente
E temos que agachar
Para lhe enfiar os dentes.

Paste sempre na planta do amor ardente!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009



VIGOROSO

Um quarto
Dez mil histórias
Duas vidas distintas
Um destino.

Cada fragmento de pele esquecida
Se recompondo
Em flocos de lembranças.

A pouca brisa lá de fora
Luta para atravessar as frestas da janela
Levantando o cheiro do seu corpo
E movendo o rio de fumaça
Que nascem entre seus dedos.

O sol, sem piedade, nos lembra
Que lá fora há vida,
Que lá fora a vida se recria.
(em recreio)
O sol que aquece a laje
E transpira nossos corpos,
Nasce as avessas
De cima para baixo
Dentro de um vestido.
(e como brilha esse sol envolto em pano fino e perfumado)

A noite chega
Uma noite não esperada
Estrelas que lardeiam o fim do dia
Sombra fria que leva o domingo
Luar que expulsa as lembranças
E decreta
O fim do quarto.

O sol é puro corpo
A noite é tenra consciência
Em um domingo de
Afável experiência.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009




( ... )


Sem um tema para falar
Sem notas para tocar
Sem imagem para pintar.

Um oco entre o espaço das orelhas,
Mesmo oco separa os braços.

Sem memória para sorrir
Sem motivo para partir
Sem nenhum gosto para sentir.

Um vazio preenche o crânio,
Mesmo vazio no meio do peito.

Sem paisagem para ver
Sem amor para ter
Sem divindade para crer.

Um nada em carne e osso,
Mesmo nada de tudo!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009



iNSPiRAÇÃO MiGRATÓRiA


As idéias me abandonaram
O poema não existe
A mão não o escreve
Não o encontro
E sem o milagre do nascimento
Sem todo sentimento
Sem qualquer linha a preencher
O poema é luto
Fruto:
Embrião que não medrou.
Viverá sempre na idéia da mãe
Que o pariu só em pensamento.
Sem emoção o poema é feto,
Sua morte pré-matura é fato.
O poema sem palavras é mudo
Não murmura ao
Poeta seus relatos.
O poema sem verso
Perde o nexo;
O poema não nasce,
Morre na mão
Do poeta disléxico.
Morte da imaginação
Transfigurando o poeta,
O poema
Em ilusão.

terça-feira, 22 de setembro de 2009



PEDRECO


Pedro Paulo
Pedro Palmas
Anjo sem calma
Felicidade de criança.

Pedro almas
Que veio para alegrar
A vida
Desse padrinho.

Pedro palmas,
Parabéns
Por seu primeiro ano
Palmas para o garoto gargalhada.

Enfrente a vida
Com bravura, honra, força e glória
Sempre assim,
Para obter sua vitória.

Que sejam felizes seus longos anos
Viva!
Pedro palmas
Que alimenta nossas almas.

O mundo que enfrentará de frente
E os anjos da guarda
Te batem palmas.

Em (19-04-2004)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009



NA SELVA


Estava matutando em alguma coisa para começar a escrever, como sempre nada me veio à lembrança ou à idéia. Na maioria das vezes me sinto uma polaroyde, só visualizo fleches e imagens em branco, fico esperando a foto aparecer, mas nada me vem à visão. Já tentei lembrar-me da infância, nada. Procurei a rebeldia da adolescência, pior. Vasculhei o princípio da maturidade, agulha no palheiro.
Resolvi tentar expor minha fascinação pela natureza, tentei lembrar de lindos bichos silvestres que pudessem expressar minha paixão pela fauna a fora, mas o único bicho que consigo me lembrar é do ouriço caixeiro, mas conhecido pelos simples, mas nunca bobos, humanos rurais por ouriço-cacheiro. Vocês já tiveram o prazer de ver tão envergonhado ser? O animalzinho vive de cabeça baixa, não mexe com ninguém; noturno, vive a procurar bebida e comida nas madrugadas itinerantes. Bicho boêmio. Quase não toma banho, dizem que é parente próximo do gambá, não lhe agrada a comparação, uma ofensa, não bebo tanto - disse uma vez. É um bicho que dá pena em quem olha. Um bobo; não corre do perigo; vive dormindo; é meio lerdo; se olhar de perto, de bem perto vai ver é até vesgo; gordo de verme; esquecido; tem perna curta e forte de tanto andar a procura de alimento; desnutrido; quase sem estudo. Seria o maior bobalhão do reino animal se não fosse uma coisa que passa quase despercebido, não ha de ser nada, pois, quase não vemos mesmo. Ver é raridade! Hoje quase não se vê mais. Os que viram, dizem que depois de sentir nunca mais se esquecerão na vida, um verdadeiro e milagroso remédio para a memória. Disfarçado entre os pelos oleosos estão centenas de espinhos mais dolorosos que a mais afiada faca que corta a carne fina e nos dá aquele arrepio típico de corte fundo na carne vermelha. Finos, longos e muito dolorosos. Dizem que a febre vem quase ao mesmo tempo que a dor. O espinho dói e a febre esfria e faz suar. Se passar o tempo sem tratamento, pode segundo muitos, levar a morte. Morte de espinho. Morte por xeretar! Sim, morte por perturbar a paz e a honra dos outros. Como? Simples, o pobre coitado do bicho não sai por ai atirando seus espinhos em quem bem entender, não lemos nas páginas policiais que fulano de tal morreu de espinho perdido. Ou, foi executado com três espinhos na cabeça. Quem já foi atingido por tal projétil espinhal foi porque mereceu, não temos dúvida disso. Tem-se notícia de cachorros metidos a besta; bestas metidas a cachorros; humanos bestas metidos a predadores e destruidores do mundo a seu redor - esses são os piores, pois tem escolha em vez do instinto - que já sofreram da tão dolorosa dor do finco nas entranhas. O mundo tinha que ter um ouriço-cacheiro para cada homem desonesto e traiçoeiro. Aprontou, leva tiro de espinho na cara-de-pau. E nós, simples mortais pagadores de impostos e indignados com tanta miséria no mundo, devíamos ser mais parecido com o ouriço-cacheiro. Não só na cabeça baixa, no jeito de andar, na inocência, no jeito matuto, na luta pela comida do dia-a-dia, na falta de esperança, na descrença. Devíamos, sim carregar os espinhos nas costas com muito orgulho e dispará-los, em um piscar de olhos, livre de pensamento e dó, nos primeiros sem vergonhas e mau-caráter que ousassem nos enganar, nos fazer mal, nos iludir ou simplesmente que nos chamassem de eleitor. Se o Brasil tivesse mais ouriço-cacheiro ele não seria assim...
Hoje estaria com febre. Amanhã, curado.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009



QUEM CONHECE ESSE SER?

Quem conhece o ser
Que se diz ser
Seu bem-quer?
Quem conhece tal criatura
Que vive ao lado
Que finge ser formosura?
De onde veio tamanha frieza
Tamanha tristeza
Dessa proeza?
Quem já viu desavergonho tal
Que mesmo fora do carnaval
Faz-se banal?
Quem foi que disse
Que tal semblante
Não esconde um amante?
Foste tu que viste
Pela vidraça
Tamanha devassa?
Quem falou que
A máscara é fraca
Dessa vaca?
Quem sabe quem é
Que merece a rima
Das linhas a cima?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009



MERCADO DE PULGAS

Treinadas para o espetáculo:
Pulgas que vem e que vão
Que passam pelo corpo de qualquer cão
Cometem suicídio
Se houver alguma desilusão
Pulem de cabeça no chão
Morram por boa razão
Nunca derramem sangue em vão
Procurem por solução
Mudem de palco
Passem para outro corpo de cão
Belas pulgas não pulam em vão
Renascem para uma nova paixão
Parasitem esse novo ser
Por pura aptidão
Pulgas que vem
E que vão
Que passam pelo corpo desse cão.

terça-feira, 15 de setembro de 2009




DOCE VENTURA

Assim me encanta
De delícia e fantasia
A vida de certa cachorrinha
Ora chamada Nina
Ora menina
Criatura apelido:
Amora,
Jaboticaba,
Abobra,
Potó,
Poxotó dourado,
Capatinha,
Picurrucha,
Cocrodila de bota,
Tica,
Bigodinha,
Muleca,
Meleca,
Chulenga,
Jujuba,
Tamanduá tátá,
Avestruz,
Cachorro coelho,
Vassourinha,
Sapeca,
Pretinha,
Bidoido di mais.

Bichinho
De estomago voraz
De olhos meigos
De corpo elétrico
De boca mordaz.

Cachorrinha
Que tem vizinhos
Que ama as pessoas
Que sempre faz amigos
Que para pedestres
Que encanta o mundo.

Nina que nos faz sonhar
Que nos traz alegria
Que encanta nossa vida
Que abre gavetas e portas
Que chora nossa partida.

Menina, amiga incondicional
Imperatriz do lar
Imortal em nosso coração
Dona do pedaço
Rainha do reino animal.

Abençoada seja
Sua forma canina de anjo
Que veio do céu nos mostrar
Como a vida é simples
Que não precisamos de muito para viver
Além de carinho,
Ternura e amor.

Nina que ensina os homens
Entre mil mordidas
Que a vida é feita
Para ser brincada
Para ser vivida
E não perdida.

Vida é latido
O poema é latido
A história é latido
Se não compartilhados...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009




CORPO SENTIDO

Aos meus ouvidos
Sua voz não mais pertence
Pertence
Ao vento, que a carrega
Aos quatro cantos do mundo
Levando-te como fumaça de fogo morto
A cada dia
A cada ventania
Para longe de mim.

Aos meus olhos
Seu raro sorriso não mais pertence
Pertence
Ao sol, que o usa como combustível
Adubando a terra de verde clarão.

Ao meu nariz
Seu cheiro não mais pertence
Pertence
A terra, que fará dele uma nova planta,
Uma flor que perfumará a noite
Trazendo-te a lembrança.

Aos meus sentidos
O batimento de seu coração não mais pertence
Pertence
Ao céu, que o usa como um tambor
Propulsor do mar de vento
E sua corrente volúvel,
Que passa por você como uma brisa
Refrescante
E carrega sua doce voz...

Que não mais me pertence
E jamais pertenceu...

(Vento não se cativa)

terça-feira, 8 de setembro de 2009



VIDA LEVADA

Vou levando a vida sem pressa
Sem nenhum adereço
Vou levando a vida expressa
Num só tropeço.
Vida rápida e fugaz
Num último suspiro
Esvai esse rapaz.
Vida sem fim
Do outro lado
- enfim -
Para mim.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

ENTRE LINHAS...(leia também os parenteses)...



ELETROCARDIOGRAMA



Parte de meu coração
Como mostram as curvas do meu eletro
Escrito torto em hebraico
Que parte de mim é você.

Cada instante de oscilação
É um milésimo de segundo
(que a saudade trás)
É um vazio interminável
(um raro sorriso)
É um sopro.
(que paralisa o coração)

Sua lembrança me vem a mente
Seu gosto me vem derrepente
(prazer te ter novamente)
As forças retornam
O vazio se preenche
O pulso retoma.
(movendo a vida, trazendo a luz)
O movimento da agulha
Treme o aparelho,
Transformando os rabiscos em
Versos de amor.
(veemente)
Eletrocardiograma:
Escrito em linhas retas
Por palavras tortas
Escrito por meu coração
Sem erro nem pontuação
Que sem você

Eu seria...

Uma linha contínua.